Dívidas de agricultores familiares chegam a R$ 8,5 bilhões e preocupam produtores no RS
Fetag-RS aponta que apenas R$ 3 bilhões do endividamento estariam enquadrados nas atuais condições de renegociação; pressão financeira ocorre justamente quando começa uma safra de verão com expectativa de recuperação da produção
O início da safra de verão 2026/27 encontra parte dos pequenos produtores gaúchos diante de um problema que não termina quando começa um novo plantio: as dívidas acumuladas após sucessivas perdas de produção provocadas, principalmente, por eventos climáticos.
Levantamento da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS) aponta que o endividamento de agricultores e pecuaristas enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) alcança R$ 8,5 bilhões no Estado.

O valor ajuda a dimensionar a dificuldade. Desse total, cerca de R$ 3 bilhões, ou 35%, estariam atualmente em condições de entrar na renegociação prevista pela Medida Provisória 1.376/2026. Isso deixaria aproximadamente R$ 5,5 bilhões fora do alcance das condições estabelecidas pela medida.
Renegociação encontra obstáculos
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) afirma que, apesar de a medida estar em vigor, a renegociação não está chegando aos produtores na velocidade esperada.
Em carta aberta, a entidade cita como obstáculos a exigência de laudos agronômicos para comprovar perdas anteriores, revisão de garantias, cobrança de entrada para o alongamento das dívidas e custos adicionais.
A preocupação é que produtores já endividados encontrem dificuldade para contratar novo crédito justamente no momento de financiar o plantio da safra 2026/27.
Para a FPA, cabe ao Congresso acompanhar a execução da medida e avaliar mudanças nas regras para ampliar o acesso à renegociação.
Campo espera produzir mais de 35 milhões de toneladas

O contraste aparece nas projeções para a nova safra. Enquanto o endividamento preocupa, a expectativa de produção é de recuperação.
Estimativa da Emater/RS-Ascar aponta que o Rio Grande do Sul poderá colher 35,639 milhões de toneladas de grãos na safra de verão 2026/27, considerando soja, arroz, milho, milho para silagem, feijão e sorgo.
Se a projeção se confirmar, serão 2,835 milhões de toneladas a mais que as 32,804 milhões de toneladas obtidas na temporada anterior — crescimento de 8,64%.
A área cultivada, entretanto, praticamente não muda. A estimativa é de 8,248 milhões de hectares, recuo de 0,37%. Ou seja, a expectativa de uma safra maior depende principalmente da recuperação da produtividade.
Soja responde por boa parte da recuperação esperada
É na soja que aparece a principal diferença. A Emater projeta 21,151 milhões de toneladas, 15,32% acima das 18,342 milhões de toneladas do ciclo anterior.
A área semeada deverá diminuir 0,92%, para 6,645 milhões de hectares. Em contrapartida, a produtividade média projetada sobe de 2.735 para 3.183 quilos por hectare, crescimento de 16,37%.
Os números mostram também o tamanho do desafio desta safra. Uma produção maior pode ajudar na recuperação financeira das propriedades, mas não elimina as dívidas acumuladas nos anos anteriores. Para muitos agricultores familiares gaúchos, o resultado de 2026/27 dependerá não apenas do clima e da produtividade, mas também das condições para renegociar débitos e manter acesso ao crédito necessário para continuar produzindo.
Por Redação AUPublicado em 20/09/2026 16:23 - Atualizado em 20/09/2026 21:57

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