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Dia em Memória do Holocausto e o abismo do desconhecimento no Brasil

Publicada em: 27/01/2026 12:24 -

Por Salus Loch, CEO do Grupo ISPO

 

Nesta terça-feira, 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, o mundo encara uma pergunta essencial: o que estamos realmente fazendo para impedir que a história se repita?

A data, mais do que ritual de lembrança, é um chamado para que sociedades inteiras se mantenham vigilantes diante de qualquer sinal de desumanização. 

Lembrar o Holocausto não é olhar para trás: é olhar para frente.

É compreender que o “nunca mais” não se sustenta sem conhecimento, sem educação e sem coragem moral.

É justamente nesse contexto que a pesquisa “Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil”, realizada pelo Grupo ISPO a pedido da CONIB, do Memorial do Holocausto de SP, do Museu do Holocausto de Curitiba e da StandWithUs Brasil, revela números que deveriam soar como sirenes em cada escola, redação e instituição pública do país.

O abismo – e o perigo – do desconhecimento

O levantamento ouviu 7.762 brasileiros em 11 regiões metropolitanas, com entrevistas presenciais e margem de erro de 4,7%. Uma amostra diversa: 54,2% mulheres, 31,4% jovens, recorte que ajuda a iluminar tendências geracionais.

Os resultados mostram que o Brasil vive uma espécie de paradoxo cognitivo:

# 59,3% dizem já ter ouvido falar do Holocausto 

# 53,2% conseguem defini-lo corretamente 

# Apenas 38,5% reconhecem Auschwitz-Birkenau como campo de extermínio 

# 51,6% não souberam responder o que é Auschwitz.

O risco não está apenas no desconhecimento — mas no que ele permite.

Imagine um adolescente rolando a tela do celular. Entre vídeos curtos, aparece um conteúdo que banaliza o nazismo ou relativiza o assassinato de milhões. Sem repertório histórico, ele não tem anticorpos contra a mentira. 

No vazio do conhecimento, o discurso de ódio encontra terreno fértil.

A relevância das escolas

A pesquisa mostra que a escola ainda é a principal trincheira:

30,9% aprendem sobre o Holocausto na sala de aula. Depois vêm filmes e livros (18,6%) e, em seguida, internet e redes sociais (12,5%). Apenas 1,7% mencionam museus e memoriais — número que escancara o quanto esses espaços seguem distantes do cotidiano da maioria.

A ameaça da indiferença

O Holocausto não começou com câmaras de gás. Começou com normalização da exclusão, em 1933. Quando o “outro” virou problema. Vale frisar, contudo, que não estamos falando apenas de judeus. Estamos falando de homossexuais, testemunhas de Jeová, pessoas com deficiência, prisioneiros políticos. Estamos falando da história em seu ponto de ruptura.

No Brasil, porém, apenas 1,7% frequentam museus ou memoriais. E 87,3% nunca participaram de eventos educativos sobre o tema.

Desigualdades que moldam o conhecimento

A pesquisa expõe cortes profundos:

Entre quem tem ensino fundamental, apenas 27,2% definem corretamente o Holocausto  Entre pós-graduados, o índice salta para 86,2% — um abismo de 59 pontos percentuais 

Por renda, há diferença de 44,5 pontos percentuais:  42,6% (renda baixa)  x 87,1% (renda alta)

Isso revela que conhecer — e, portanto, reconhecer riscos — é privilégio. E onde o conhecimento é privilégio, a democracia é frágil.

Pensamento crítico para construir fraternidade

Educar sobre o Holocausto não é ensinar sobre o horror — é ensinar sobre o humano. É aprender a identificar, ainda no início, os sinais da desumanização. É impedir que discursos de ódio se travistam de opinião aceitável.

O diagnóstico está feito. A cura depende de nós.

A pesquisa do Grupo ISPO entrega um mapa claro das lacunas do Brasil.

Agora, cabe ao país — escolas, famílias, governos, imprensa — transformar esses dados em ação.

Precisamos de: mais educação, mais debate público, mais memória viva, mais pensamento crítico. Sem isso, deixamos as próximas gerações expostas a versões distorcidas da história — e versões distorcidas sempre interessam a alguém.

Lembrar o Holocausto não é gesto voltado apenas ao passado. É compromisso ativo com direitos humanos, vigilância democrática e recusa permanente à normalização do inaceitável.

Essa responsabilidade se impõe no cotidiano. A pesquisa entrega o diagnóstico. A cura exige esforço coletivo — e essa responsabilidade é de cada um de nós.

 

Por Salus Loch
Foto Salus Loch

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